Dr. Marcelo Reis
Médico ortopedista, ex-presidente do CRM-SC, com 28 anos de atuação no SUS em Santa Catarina e pré-candidato a Deputado Federal pelo PL/SC
São 28 anos atendendo pelo SUS em Santa Catarina. Nesse tempo, perdi a conta de quantos pacientes chegaram ao consultório com uma pasta de exames debaixo do braço e a mesma pergunta no rosto. “Vou ter que fazer tudo de novo, doutor?” Muitas vezes, sim. O serviço anterior não conversa com o nosso, o laudo se perdeu, a radiografia venceu enquanto a pessoa esperava na fila. O paciente paga duas vezes. Com o próprio tempo e com o dinheiro público que financia o exame repetido.
Defender mais recursos para o SUS é indispensável, e eu defendo. Um sistema que vai da vacina na unidade de saúde à cirurgia de alta complexidade não se sustenta com um orçamento menor do que a tarefa. A população envelhece, as doenças crônicas avançam, os tratamentos novos custam cada vez mais caro. Não existe gestor capaz de compensar indefinidamente a falta de dinheiro.
Mas o dinheiro, sozinho, não opera ninguém. Entre o orçamento aprovado em Brasília e o cuidado prestado na ponta existe uma cadeia de decisões que quase nunca aparece no debate público. Onde investir, o que comprar, como contratar, quem executa, como acompanhar o resultado. Basta uma dessas etapas falhar para o recurso ser gasto sem produzir o benefício que justificou o anúncio.
As emendas parlamentares são um bom exemplo. Elas viabilizam investimentos importantes e atendem demandas antigas dos municípios, e não faltam inaugurações para comprovar. Uma ambulância nova rende foto. O motorista, o combustível e a manutenção do ano seguinte raramente aparecem na legenda. Quando a destinação do recurso não está amarrada ao planejamento regional, o equipamento chega e o funcionamento não vem junto.
Também precisamos rever a forma como pagamos os serviços. A tabela que remunera boa parte dos procedimentos do SUS não passa por uma atualização abrangente desde 2013. Treze anos. Nesse período, o custo de material, energia e equipe subiu sem parar, e quem atende segue recebendo por valores de outra década, enquanto a conta que falta fecha no município e a espera fica com o paciente. Ao mesmo tempo, continuamos medindo a produção pelo volume. Consultas, exames, internações. Esses números importam, mas mil consultas dizem pouco se não soubermos quantos pacientes saíram com o diagnóstico correto e começaram o tratamento a tempo.
Qualquer mudança nesse modelo precisa ser gradual e considerar a gravidade dos casos atendidos. Uma régua mal calibrada pune exatamente o hospital e a equipe que recebem os pacientes mais complexos.
Como ortopedista, aprendi a valorizar a atenção básica mais do que muita gente imagina. É ela que identifica a dor que não melhora, encaminha no tempo certo e acompanha o paciente depois da cirurgia. O que falta, muitas vezes, é o caminho de volta. A equipe que encaminha alguém ao especialista raramente fica sabendo se a consulta aconteceu, qual foi o diagnóstico e como seguirá o tratamento. A falha não é da unidade nem dos seus profissionais. É da comunicação entre os pontos da rede, que um prontuário integrado, com regras claras de acesso e de proteção dos dados pessoais, ajudaria a resolver.
A judicialização da saúde nasce do mesmo problema. Para muita gente, procurar a Justiça é o único caminho que restou, e esse direito não pode ser tratado como abuso. A pergunta certa é outra. Por que a resposta administrativa não chegou antes da decisão judicial? Proteger o paciente e corrigir a política pública são objetivos compatíveis.
Governança parece assunto de gabinete. Não é. É a diferença entre conhecer e não conhecer o tamanho da fila, entre o estoque controlado e o medicamento vencendo na prateleira de um município enquanto falta no vizinho. É saber quem decidiu, com base em que informação, e prestar contas disso em uma linguagem que qualquer pessoa entenda.
Não escrevo nada disso para justificar corte de verba na saúde. Escrevo porque passei 28 anos vendo profissionais dedicados compensarem no improviso o que a gestão não entregou. O SUS precisa de mais recursos, sim, e precisa que cada real novo tenha destino claro, responsável definido e resultado acompanhado. Orçamento maior é boa notícia quando reduz a espera, garante o diagnóstico na hora certa e assegura a continuidade do tratamento. É por isso que a política de saúde deve ser avaliada. Pelo que chega ao paciente, não pelo que se anuncia.







