Blog do Prisco
Coluna do dia Manchete

Reposicionamento de Jorginho provoca palanques cruzados em SC

Nem sob tortura o governador Jorginho Mello admitiria hoje, publicamente, qual era sua chapa dos sonhos para 2026. Mas, nos bastidores, em Brasília e em Santa Catarina, ela sempre foi conhecida: Carol De Toni ao Senado, Esperidião Amin buscando a reeleição na outra vaga, e Carlos Chiodini como vice.

Era a engenharia política perfeita para o projeto de poder do governador. De um lado, a força ideológica e eleitoral do bolsonarismo-raiz, representada por Carol. De outro, o peso histórico e municipalista do MDB catarinense, partido estruturado em praticamente todos os municípios do Estado. E, fechando o círculo, Amin, liderança que atravessa décadas mantendo densidade eleitoral própria e influência consolidada entre conservadores e setores do interior.

Durante três anos, Jorginho trabalhou precisamente para isso: atrair o antigo Progressistas — agora integrado à federação com o União Brasil — e consolidar uma ampla composição com o MDB. Era o desenho ideal para buscar uma reeleição sem sobressaltos.

Mas a política raramente respeita projetos lineares.

O advento de Carlos Bolsonaro, empurrado para Santa Catarina pelo pai, Jair Bolsonaro, alterou completamente o tabuleiro. Jorginho, que deve diretamente sua vitória de 2022 ao capital político do ex-presidente, simplesmente não tinha margem para rejeitar a imposição.

Ao mesmo tempo, surgiu outra ameaça estratégica: a movimentação do PSD tentando atrair Adriano Silva para disputar o governo estadual, enquanto João Rodrigues migraria para a corrida ao Senado. O governador reagiu rapidamente e buscou alternativas para impedir o esvaziamento de seu campo político.

Tudo passou a ser movido pela necessidade. Não mais pela preferência.

Preteridos

O efeito colateral acabou sendo inevitável. Os dois nomes originalmente centrais na construção política de Jorginho — Amin e Chiodini — foram empurrados para o projeto adversário.

Hoje, João Rodrigues alcança uma façanha raríssima na política catarinense das últimas quatro décadas: colocar lado a lado, no mesmo palanque, o principal líder do PP catarinense e o presidente estadual do MDB. Exatamente os dois atores que ficaram fora da composição prioritária do governador.

Nas últimas semanas, Amin e Chiodini percorreram o Litoral e o Planalto Norte, além do Alto Vale do Itajaí, em clima de absoluta naturalidade. Sem constrangimentos aparentes. Sem ruídos públicos.

Mas campanha é fotografia. Eleição é urna.

Rivalidade

É justamente aí que mora o maior desafio político de 2026.

Uma coisa é dirigentes partidários dividirem palco. Outra, muito diferente, é transferir voto histórico de militância.

Amin carrega uma longa trajetória de enfrentamentos diretos contra o MDB catarinense. Não se trata de uma disputa episódica, mas de décadas de antagonismo político. O senador enfrentou candidatos emedebistas ao governo em momentos decisivos da história catarinense: Jaison Barreto em 1982, Paulo Afonso Vieira em 1998 e Luiz Henrique da Silveira em 2002 e 2006.

Foram campanhas duríssimas. Confrontos intensos. Rivalidades regionais e pessoais sedimentadas durante décadas.

Não é algo que desaparece apenas porque duas executivas estaduais decidiram caminhar juntas.

Senado

E existe ainda um elemento histórico extremamente revelador.

Em 2018, o próprio Jorginho Mello demonstrou compreender perfeitamente a lógica eleitoral do MDB quando costurou sua candidatura ao Senado na chapa encabeçada por Mauro Mariani.

Muito antes da campanha, Jorginho deixou claro a Mariani que aceitaria a aliança, mas com uma condição estratégica: a segunda vaga ao Senado não poderia ser ocupada por alguém do MDB. Sabia exatamente o que aconteceria se houvesse outro emedebista na disputa. A militância dividiria votos — ou concentraria preferência no nome do próprio partido.

Resultado: Jorginho se elegeu senador. Paulo Bauer, então candidato tucano à reeleição, ficou pelo caminho.

Agora, Amin tenta operar lógica semelhante. Quanto mais isolado estiver na disputa ao Senado dentro do campo oposicionista a Jorginho, maiores serão suas chances de capturar votos emedebistas na base municipal, entre prefeitos, vereadores, lideranças locais, filiados e simpatizantes.

O problema é que história política pesa. E Santa Catarina talvez seja o estado brasileiro onde memórias partidárias permanecem mais vivas no interior.

Por isso, a grande incógnita de 2026 não é apenas quem estará no palanque. A dúvida real é quem conseguirá transferir voto de verdade quando as urnas forem abertas.