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Quem manda: você ou a bebida?

Convido o leitor para que faça uma experiência consigo mesmo: ficar 30 dias sem beber.

Não é uma promessa de abstinência para o resto da vida, serão apenas 30 dias.

Não é uma condenação ao álcool, será apenas uma experiência.

Será apenas um teste. E, dependendo do resultado, ele poderá revelar muito sobre você.

Vivemos em uma sociedade que banalizou o consumo de bebida alcoólica. Cerveja virou sinônimo de futebol; vinho, de sofisticação; espumante, de comemoração; e a aparente inocente “cervejinha, passou a ser apresentada como uma suposta necessidade para relaxar depois de um exaustivo dia de trabalho.

Mas será necessário realmente beber para nos divertir ?

A pergunta que incomoda é outra: conseguimos ficar 30 dias sem beber ?

Se a resposta for “sim”, ótimo. Mas observe como você se sente durante esses 30 dias.

Você dorme melhor ? Acorda mais disposto ? Economiza dinheiro ? Melhora sua alimentação ? Percebe mudança em relação a convivência com a esposa e filhos ? Tem mais paciência ? Percebe mudanças no humor, na produtividade ou nos relacionamentos ?

Agora, se a resposta for “não”, talvez seja hora de prestar muita atenção.

Muitas vezes, o primeiro sinal de que existe um problema não está na quantidade de álcool ingerida, mas na incapacidade de simplesmente conseguir ficar sem ele.

“Eu só bebo socialmente.” “Eu paro quando quiser.” “Não consigo imaginar um churrasco sem cerveja.” “Preciso de uma dose para relaxar.” São frases aparentemente inocentes, mas que normalmente escondem uma relação muito mais profunda e perigosa com a bebida.

O álcool também tem uma característica muito perigosa: é socialmente aceito e o pior: o seu consumo é esperado.

Diferentemente de outras drogas, seu consumo é frequentemente incentivado pela mídia, nos encontros na família, nas festas e até por determinadas tradições culturais. Quem recusa uma bebida normalmente precisa explicar sua decisão. Quem aceita, nunca precisa.

Não se está propondo aqui uma guerra contra a bebida. Esta se propondo uma guerra contra a normalização, contra o excesso e contra a falsa ideia de que beber é fundamental para viver bons momentos.

Trinta dias podem parecer pouco. Mas podem ser suficientes para você descobrir quem realmente está no comando.

Você controla a bebida ou a bebida já controla uma parte da sua rotina ?

O maior benefício desses 30 dias não é simplesmente ficar sem álcool, será recuperar a capacidade de escolher.

Porque liberdade não é poder beber quando quiser. Liberdade é também conseguir dizer: “não quero beber”, “não preciso beber”, e permanecer firme nessa decisão.

Você aceita a experiência ? Serão apenas 30 dias ! Você consegue ?

Fernando Henrique da Silveira

• Presidente do Conselho Estadual de Entorpecentes de Santa Catarina – CONEN;
• Advogado, jornalista e radialista;
• Pós-graduado em Direito Penal e Processual Penal;
• Doutor em Ciências Jurídicas e Sociais;
• Membro Consultivo da Comissão de Políticas sobre Drogas da OAB/ SC.