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Inovador na saúde, apaixonado no futebol: João Nilson Zunino ganha biografia

Livro será lançado no aniversário de 80 anos de nascimento do empreendedor na área médica que também fez história como presidente do Avaí

 

No dia em que João Nilson Zunino completaria 80 anos, 9 de abril de 2026, sua família irá lançar a biografia de um dos personagens mais inquietos e multifacetados de Florianópolis. O livro “Zunino – além da medicina e do futebol” resgata a trajetória completa do médico empreendedor na área da saúde e presidente mais marcante do Avaí Futebol Clube. A obra é de autoria do escritor e jornalista Maurício Oliveira, em projeto coordenado pela filha de Zunino, Daniela, com selo da Editora Expressão. A partir da data do lançamento, estará disponível em www.editoraexpressao.com/portfolio/livros.

 

O livro é baseado em relatos gravados com o próprio Zunino antes de sua morte precoce, em 23 de dezembro de 2014, aos 68 anos, durante tratamento por câncer, e em dezenas de entrevistas realizadas naquela época e na atualidade com familiares, amigos e pessoas com quem ele atuou em várias áreas. “Apesar de meu pai ter se tornado muito conhecido pela sua atuação no futebol, esse projeto resgata também outras grandes realizações suas e o seu jeito de ser que tocou tantas vidas, além do perfil de um pai amoroso e que exerceu um papel central na vida de nossa família e de muitos amigos. Era uma das pessoas mais apaixonadas pela vida que conheci”, recorda Daniela Zunino.

João Nilson Zunino – acervo pessoal

 

João Nilson Zunino foi pioneiro em muitas frentes na área médica, ajudando a trazer medicina de ponta para Florianópolis, e também revolucionou o Avaí, implementando uma gestão profissional no período em que exerceu a presidência do clube (2002-2013) e escreveu um dos capítulos mais marcantes do time: a ascensão à Série A do campeonato brasileiro, em 2008. A biografia celebra a sua trajetória e traz também histórias marcantes e curiosas contadas por quem conviveu de perto com Zunino, como a sua paixão pelo Avaí e a excepcional capacidade diagnóstica, que produziu casos surpreendentes.

 

Nascido em Tigipió, interior de São João Batista, ele se mudou para a Capital para cursar Medicina na UFSC, onde se formou como médico patologista. Sua família não possuía recursos e por isso Zunino trabalhou desde cedo. Proprietário do Laboratório Médico Santa Luzia e obcecado pela qualidade, o transformou no maior laboratório de Santa Catarina e referência nacional em análises clínicas, com oferta de exames inéditos no Estado. Sua política de qualidade inspirou as práticas implementadas no Hemocentro de Santa Catarina (Hemosc), hoje posicionado entre os três melhores hemocentros do País. Foi também um dos idealizadores e fundadores da Clínica Imagem, em 1994, e do Hospital Baía Sul, inaugurado em 2005.

 

“São obras de um homem visionário, que se fez sozinho a partir de uma comunidade rural do Tigipió. Foi um menino que carregou uma intensa chama realizadora, que o impulsionou a buscar incansavelmente os estudos e o empreendedorismo. É reconhecido por isso, mas ainda mais pela figura humana, pelo interesse extraordinário que tinha nas pessoas. Ele segue muito vivo na memória de quem conviveu com ele ou foi de alguma forma impactado pelas diversas dimensões de sua personalidade multifacetada”, considera o autor da biografia. “Ele sempre cumprimentava as pessoas, conversava com os mais velhos. Todo mundo gostava dele por ser atencioso e alegre”, recorda a esposa, Marlene Zunino.

 

No futebol, Zunino promoveu a modernização da Ressacada, investindo na infraestrutura do campo e em comodidades para o torcedor, na profissionalização da gestão do clube e em melhores condições de treinamento e condicionamento físico dos atletas. Com ele, o Leão da Ilha foi campeão catarinense em 2009, 2010 e 2012, conquistou o acesso à Série A em 2008 e fez a melhor campanha de um clube catarinense na elite do futebol nacional: o 6° lugar em 2009. Com três gestões (2002/2005, 2006/2009 e 2010/2013), até hoje é o presidente do clube mais longevo no cargo – com o último mandato interrompido ao final, pela doença.

 

João Nilson Zunino

Nascido em Tigipió, interior de São João Batista, mudou para Florianópolis para estudar Medicina na UFSC e na Capital tornou-se um dos mais importantes empreendedores da área da saúde, além de ter sido dirigente de entidades da área e presidente do Avaí por três mandatos (2002 a 2013). Transformou o Laboratório Médico Santa Luzia em referência nacional e foi um dos fundadores da Clínica Imagem e do Hospital Baía Sul. Foi presidente da Associação Catarinense de Medicina, da Unimed Grande Florianópolis, Presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/RJ) e membro titular da Academia Catarinense de Medicina. Casou com Marlene Maria Zunino, também de Tigipió, e teve quatro filhos, Daniela, Alexandra, Gisele e Gabriel, além de sete netos.

10 CURIOSIDADES PRESENTES NA

BIOGRAFIA DE JOÃO NILSON ZUNINO,

DA MEDICINA E EMPREENDEDORISMO AO FUTEBOL

 

DA MEDICINA E EMPREENDEDORISMO:

 

Caçador de sapos

Zunino não decidiu a profissão, foi escolhido pela patologia. Aos 14 anos, precisou de um emprego para se manter sozinho em Tijucas. Era a única forma de continuar os estudos, pois na localidade de Tigipió, onde nasceu e a família morava, a escola só ia até a 4ª série. Então ele se tornou colaborador do laboratório central da cidade, graças à experiência anterior adquirida como balconista de farmácia. Ele realizava o exame de gravidez Galli-Mainini, sobrenome do médico endocrinologista argentino que descobriu a reação biológica decorrente da injeção da urina da mulher em um sapo macho. Se a mulher estivesse grávida, isso causaria a produção de espermatozoides, constatada depois de três horas por meio do recolhimento da urina do sapo com uma pipeta e análise por microscópio. Parte da missão de Zunino era capturar os sapos, e ele logo aprendeu que o melhor horário para a caça era o início da noite, especialmente nos arredores dos postes de iluminação, cuja luz atraía insetos – que, por sua vez, atraíam os animais.

 

A bicicleta que moldou o futuro

Tudo o que Zunino construiu foi moldado por um episódio vivido na infância. Ele credita ao desejo por uma bicicleta e ao esforço empreendido para adquiri-la a forma como ousou e trabalhou ao longo da vida. Ele queria muito ganhar uma bicicleta que havia visto na vitrine da única loja de utilidades domésticas do Tigipió, comunidade rural onde morava no interior de Tijucas. Ele e o irmão pediram ao pai, que disse que teriam que conquistar recursos para comprá-la. Naquela época, década de 50, crianças assumiam tarefas em troca de renda, e Zunino fez um planejamento e trabalhou junto com o irmão para juntar o dinheiro necessário. Ele nunca esqueceu da sua primeira realização com o trabalho e nem do caderno onde anotava a evolução do patrimônio para essa finalidade.

 

Sempre além

Zunino sempre dava um jeito de implementar algo novo e corria atrás do que precisasse para ajudar amigos e pacientes. Se o assunto envolvesse estudo, que ele valorizava muito, sua dedicação aumentava. O livro tem vários exemplos disso, e um deles envolveu adquirir um equipamento para o seu laboratório que permitiu a realização de um exame específico para que uma médica, filha de um grande amigo seu, fizesse sua pesquisa de doutorado. Inclusive Zunino montou uma sala especial para que pudesse supervisionar de perto o protocolo de quimioterapia a que esse amigo precisou se submeter.

 

Aposta na alta complexidade

Como empreendedor, Zunino enxergava além, e seu perfil agregador impulsionava parcerias e conexões. Quando planejava instalar o primeiro tomógrafo da capital catarinense, ouviu falar que o neurocirurgião Irineu May Brodbeck também estava se movimentando nessa mesma direção. Os dois foram, então, conversar. Como os investimentos dificilmente seriam recuperados se houvesse concorrência, eles decidiram por um projeto em conjunto e passaram a pensar grande: por que não trazer outros equipamentos de alta complexidade além do tomógrafo? Surgia a sociedade que levou à fundação da Clínica Imagem, em 1994, e do Hospital Baía Sul, inaugurado em 2005, referências na história da saúde em Florianópolis.

 

Diagnósticos excepcionais

Zunino era um observador minucioso e tinha excelente capacidade diagnóstica. Não deixava de exercê-la em nenhuma circunstância. Era comum abrir o seu laboratório fora do horário para realizar exames que considerava urgentes após contatos casuais com conhecidos. E também, em contato com médicos, acelerava a realização de novos exames de pacientes quando percebia alterações importantes em testes já realizados. Em uma viagem ao Rio de Janeiro, observou sede constante e vontade de urinar frequente em um amigo, com quem chegou a Florianópolis em um voo na madrugada. Zunino o pegou pelo braço e levou direto ao laboratório: o teste confirmou a suspeita de diabetes. Outra vez, a filha Daniela esperava na calçada e um vigia de um prédio da rua se aproximou dizendo não estar se sentindo bem. Zunino estava saindo do prédio, percebeu que o homem estava prestes a ter uma parada cardíaca e o levou ao Hospital Celso Ramos, provavelmente salvando sua vida.

 

Atropelamento e perda do olfato

Em 2007, Zunino foi atropelado por uma moto ao chegar no Aeroporto de Florianópolis, onde embarcaria para assistir ao jogo do Avaí contra o Santo André, no ABC Paulista. Ele atravessou a rodovia sem perceber a aproximação da moto, que acabara de sair da Base Aérea. Não sofreu fraturas, mas bateu a cabeça e ficou uma semana internado. Uma das consequências imediatas foi a perda do olfato, nunca mais recuperado. As pessoas próximas perceberam que, dali em diante, ele ficou mais irritadiço e com menos freio nas manifestações de insatisfação. Seis anos depois, quando foi submetido a uma cirurgia para retirada de tumores no cérebro, a equipe médica constatou lesões no lóbulo frontal que não tinham a ver com os tumores – foi quando se fez a conexão com o atropelamento. É justamente o lóbulo frontal que controla as emoções, o que ajudava a explicar as mudanças de comportamento depois do acidente.

 

Obstinado com a saúde

Zunino era obstinado com a saúde dos familiares e com a própria. Praticava exercícios, cuidava da alimentação e cuidava de todos. Fazia exames regulares, assombrado pela perda de uma irmã aos 28 anos por câncer no intestino. Foi um desses checkups rotineiros que revelou a sua doença, antes mesmo de qualquer sintoma, em 2012. Um exame de sangue mostrou alteração compatível com câncer, e ele então iniciou uma varredura no próprio corpo para descobrir a localização. Era um tumor no lóbulo direito do pulmão. O prognóstico inicial foi positivo, com a perspectiva de remoção total do tumor com uma cirurgia relativamente simples. A descoberta de metástase durante a cirurgia mudou o prognóstico: a chance de retorno em até dois anos era de 80%, com maior probabilidade no cérebro – o que de fato ocorreu no ano seguinte. Zunino sempre se referia aos tumores como “jacarezinhos”.

 

DO FUTEBOL:

 

Motivado pelo adversário

Como presidente do Avaí, Zunino precisou de muita resiliência, já que nenhum título foi obtido no primeiro mandato (2002-2005), dedicado à organização da gestão, geração de novas fontes de renda, investimentos na infraestrutura da Ressacada e em melhores condições de treinamento e condicionamento físico dos atletas. Impaciente com a demora dos resultados em campo, parte da torcida avaiana passou a gritar “Fora, Zunino!” depois dos resultados mais decepcionantes. Ele estava propenso a desistir, mas uma ação da torcida do arquirrival Figueirense mudou tudo: uma irônica faixa “Fica, Zunino!”. Ali ele tomou a decisão de se candidatar à reeleição, iniciando o período de conquistas na presidência do clube. “Quero deixar bem claro e bem firmado que a grande razão para eu ter continuado no Avaí, organizando-me melhor e ter levado o Avaí para a Série A, foi por conta desses torcedores. Fiquei para fazer isso, estimulado pelo sarcasmo”, lembrou Zunino sobre aquele momento.

 

“Imundiça” do Estreito

O nome do maior adversário do Avaí era impronunciável para Zunino. Sempre que se referia ao time alvinegro, a alcunha era a mesma: “imundiça”, corruptela em “manezês” para o termo “imundície”. Certa vez, na véspera de um jogo importante do Figueirense contra um time de fora, perguntaram se ele torceria pelo arquirrival em nome do sucesso do futebol da Capital. A resposta foi: “Olha, se tiver um time de cachorros jogando contra a imundiça, pode ter certeza de que eu estarei na arquibancada latindo”. Tudo fazia parte da celebração folclórica de uma rivalidade que, no fundo, envolvia admiração mútua. Avaí e Figueirense sempre impulsionaram um ao outro ao longo das décadas, algo que nunca se materializou tão claramente quanto no período de Zunino à frente do Leão da Ilha, época em que o Figueirense também estava forte.

 

Proximidade com os jogadores

Como presidente do Avaí, Zunino assumia um papel paternal na relação com os jogadores, pois sabia que muitos deles haviam saído cedo de casa por conta do futebol e sentiam falta de um contato mais próximo com a família. Com alguns, a relação se tornou mais estreita – nesses casos, as piadas e provocações eram frequentes.

– Ele vivia dizendo que eu era sortudo, que a bola batia na minha canela e entrava – conta o artilheiro Evando, que ganhou a alcunha “O Iluminado” por feitos como um gol antológico de bicicleta contra o Corinthians. – Depois desse gol, a primeira coisa que ele me disse foi: “tu é uma naba mesmo, aquilo ali foi pura cagada” – diverte-se Evando.

O bom humor era uma marca da relação com os jogadores no dia a dia, mas nem por isso Zunino deixava de ser respeitado.

– Ao mesmo tempo em que era brincalhão, isso não interferia nos momentos de seriedade e não o impedia de fazer cobranças, sempre de forma transparente – lembra Delmar da Rosa Pereira, o Pereirinha, massagista histórico do Avaí, que chegou ao clube em 1984. 

Marquinhos, visto por muitos torcedores como o maior ídolo de todos os tempos, com 400 jogos e 94 gols marcados, lembra com carinho do presidente que virou amigo. Um momento marcante foi a última conversa, por telefone, com Zunino já muito doente. Marquinhos ligou depois do jogo que, em 29 de novembro de 2014, assegurou um novo retorno do Avaí à Série A – vitória de 1 a 0 sobre o Vasco, na Ressacada, com gol dele, de pênalti.

– Tu vivia dizendo que eu não sei bater pênalti. Olha aí, o Avaí tá na Série A graças ao meu gol de pênalti – provocou Marquinhos.

– Às vezes acontece um milagre – retrucou Zunino.

– Pelo menos não fui pra bola rebolandinho que nem tu.

Era uma referência às peladas de confraternização de fim de ano, nas quais sempre surgia um pênalti “mandrake” para Zunino cobrar. Nessas ocasiões, conta Marquinhos, o presidente caminhava um tanto estranhamente até a bola.

– É pra tirar a concentração do goleiro – justificava o presidente. 

O fato incontestável é que ele se sentia muito à vontade no ambiente de vestiário. 

– Sempre gostei de futebol, da bola rolando, por isso não tinha como não me misturar com aqueles caras que entravam no campo – recordou Zunino.

 

Fonte: livro “Zunino – além da medicina e do futebol”, de Maurício Oliveira, com selo da Editora Expressão

 

foto de capa> Maurício Oliveira, autor do livro, com a esposa de Zunino, Marlene, e a coordenadora do projeto de biografia, Daniela Zunino

Crédito foto: Evaldo Silva Filho

 

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