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O ódio mata. Matou Fatiere.

Dois fatos lamentáveis chamaram nossa atenção recentemente para o exasperamento das relações humanas e a perpetração de uma verdadeira apologia aos crimes de ódio. Enquanto Blumenau, no Vale do Itajaí, recebeu como celebridade em um desfile da Oktoberfest o deputado federal Jair Bolsonaro, ídolo da extrema direita e que faz apologia à ditadura, à xenofobia e à homofobia, na vizinha Navegantes o refugiado haitiano Fetiere Sterlin, de 33 anos, foi assassinado brutalmente a facadas e pedradas. Por ironia, no mesmo sábado, dia 17.

Com certeza, um dia marcado a ferro no coração de todas as pessoas que defendem a vida e respeitam as diferenças de credo, origem e ideologia. Atitudes que nos tornam seres humanos. A morte de Fatiere é simbólica demais para ser esquecida no amontoado de notícias policiais que entulham diariamente os jornais. Apesar da Polícia Civil descartar a primeira hipótese anunciada, de que se tratava de um crime de ódio, motivado pela xenofobia, o episódio oferece uma pequena amostra de como estão nossos dias. Para alguns pode parecer doentio imaginar que a nacionalidade seja o suficiente para justificar a morte, no entanto, é fato que nossa sociedade pensa – e principalmente age – diferente.

O que colabora com esse pensamento? Pois bem, vamos para as possíveis causas. Como disse no início do texto, no sábado, dia 17, esteve em Blumenau o deputado Jair Bolsonaro. O mesmo que em entrevista para um jornal de Goiás afirmou que os refugiados haitianos, senegaleses, bolivianos e sírios são a “escória do mundo”. Ora, o que pensar, quando figuras públicas destinam tempo para declarar o preconceito às mulheres, aos homossexuais e imigrantes? Neste ponto, fica difícil imaginar que o mesmo ódio não seja reproduzido e incentivado na população. Há inúmeros argumentos que dão conta de rebater estes preconceitos com folga, mas é melhor não alongar a história, já que quem corrobora com ideias desta pequenez não costuma ser grande amigo dos livros e, por consequência, da leitura.

De onde vieram nossos pais e bisavós? Quais as histórias que contam nossos sobrenomes? Sejamos sensatos: não há brasilidade maior que a miscigenação, mistura e respeito às diferenças. Os alemães, italianos, japoneses, suíços, portugueses e poloneses que viram em nossas terras, assim como os refugiados de hoje, a oportunidade de uma vida melhor. Ou ainda, os angolanos, moçambicanos e tantos outros que foram trazidos à força, como escravos, deixando do outro lado do oceano além da liberdade, parte da própria história. Todos estes são agora a tradução mais literal do que é ser brasileiro.

O que vamos dizer para a companheira e os amigos de Fatiere que foi assassinado barbaramente por pelo menos dez pessoas a caminho de uma festa, expondo ideais raivosos de alguns? O que dizer para os cerca de 250 haitianos que vivem em Navegantes? E para os milhares que vieram para Santa Catarina e perceberam aqui um paraíso para quem busca trabalho e quer reconstruir a vida depois do terremoto de 2010? Que nossas vozes não se calem para os cerca de 60 mil refugiados do Haiti que migraram para nosso país, abandonando tudo menos a esperança, nestes últimos cinco anos, reconhecendo no Brasil uma nação que respeita os direitos humanos.

Esta é mais uma morte que vai para a conta dos intolerantes. O ódio mata. Matou no dia 17 e irá continuar matando enquanto houver silêncio de quem ainda tem compaixão. Fatiere partiu, mas deixou uma lição.

 

 

Ana Paula Lima, Deputada estadual

ana paula coordenação da bancada feminina

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